15 SET 2025
Um "Homenzinho"
O primeiro fora a gente nunca esquece. Principalmente quando acontece aos seis anos, vestido de gaúcho, diante de uma prenda mais velha.

Trilha desta crônica
Ben E. King — Stand By Me
O primeiro fora a gente nunca esquece.
Principalmente quando acontece aos seis anos, vestido de gaúcho, diante de uma prenda mais velha e com a autoestima de quem tinha acabado de descobrir que existia rejeição no mundo.
Eu estava impecável.
Bombacha.
Lenço vermelho.
Bota.
Postura.
Na minha cabeça, eu não era uma criança.
Eu era um homem pequeno.
Existe diferença.
E havia um agravante importante nessa história.
Pouco tempo antes eu tinha feito seis anos.
No meu aniversário, minha mãe olhou pra mim e disse:
“Agora tu já é um homenzinho.”
Ela falou.
Eu acreditei.
Esse foi o erro.
Porque a partir daquele momento eu passei a circular pela vida com a segurança de um homem recém-promovido.
Seis anos.
Homenzinho.
Cargo novo.
Responsabilidades ainda indefinidas.
Mas eu estava pronto.
Aí vi a prenda.
Mais velha.
Bonita.
Arrumada.
E pensei: vou chamar ela pra dançar.
Fui com uma confiança que hoje eu gostaria de recuperar.
Porque aos seis anos eu não tinha trauma, não tinha medo de rejeição, não tinha terapia e, aparentemente, também não tinha espelho.
Cheguei nela e convidei.
Ela me olhou de cima até embaixo.
O que também não era muito difícil.
E soltou:
“Olha o seu tamanho. Tu é uma criança.”
Aquilo me atingiu num lugar que eu nem sabia que existia.
CRIANÇA?
Minha senhora, minha mãe tinha acabado de me promover.
Eu era um homenzinho.
Tinha testemunha.
Tinha mãe envolvida.
Tinha cerimônia de aniversário.
Aquilo não era opinião.
Era informação oficial.
Então levantei a mão imediatamente e fiz o número seis com os dedos.
Indignado.
“Eu fiz seis anos. Não sou mais criancinha.”
Na minha cabeça, aquilo encerrava qualquer discussão.
Eu tinha apresentado provas.
Documento.
Testemunha.
Materialidade.
Parecer materno favorável.
Caso encerrado.
Eu realmente esperava que ela olhasse para minha mão e dissesse:
“Ah, seis? Perdão. Pensei que tu tivesse cinco. Vamos dançar.”
Mas ela manteve a decisão.
Sem direito a recurso.
Foi a primeira vez na minha vida que descobri que uma promoção dada pela minha mãe não tinha validade no mercado.
Eu estava em choque.
Não pela rejeição.
Pela injustiça administrativa.
Porque uma coisa era ela não querer dançar comigo.
Outra coisa completamente diferente era me chamar de criancinha.
Eu tinha seis anos.
Seis anos era idade de responsabilidade.
Eu já escolhia o sabor do meu iogurte.
Já guardava meus próprios brinquedos quando ameaçado.
Já atravessava a sala sem supervisão.
Eu tinha uma vida.
Essa foto foi tirada depois.
Agora olha para a minha cara.
Aquilo não é tristeza.
É ódio institucional.
Eu estava ali pensando:
“Um dia eu vou crescer e essa senhora vai se arrepender.”
Senhora.
Ela provavelmente tinha oito.
Mas naquele momento eu a enxergava como uma mulher madura que tinha usado a diferença de idade para destruir os sonhos de um jovem recém-promovido a homenzinho.
Minha mãe devia estar atrás da câmera:
“Thiago, sorri.”
Sorrir?
Mãe, por favor.
Tu mesma acabou de me dar um cargo.
Agora sustenta.
Acabei de sofrer preconceito etário.
Eu tinha acabado de descobrir que dois centímetros podiam separar um homem de um menino.
E eu não tinha os dois centímetros.
Fiquei com essa cara.
Cara de quem perdeu a fazenda.
Cara de quem recebeu uma carta do banco.
Cara de quem chegou em casa e encontrou outro cavalo estacionado na frente da estância.
Tudo isso aos seis.
E o pior é que eu estava genuinamente ofendido.
Porque na minha cabeça meu argumento era irrefutável:
“EU FIZ SEIS.”
Talvez essa seja a melhor parte da infância.
A convicção.
Hoje alguém questiona a gente e começamos:
“Será que ela tem razão?”
Aos seis anos não.
Aos seis anos eu tinha certeza absoluta de que o problema era ela.
Eu era um homenzinho.
Minha mãe tinha dito.
Ela que não estava preparada para um relacionamento sério.
Demorei anos para superar.
Uns vinte minutos, aproximadamente.
Depois provavelmente apareceu comida.
Mas aquela frase ficou.
“Olha o seu tamanho.”
Hoje eu olho essa foto e só consigo pensar que ela foi muito cruel.
E muito correta.
Eu era minúsculo.
Mas já tinha uma autoestima gigantesca.
E uma mãe que tinha me convencido de que completar seis anos era praticamente alcançar a maioridade civil.
Talvez tenha sido meu primeiro grande aprendizado amoroso:
tu pode colocar sua melhor roupa, reunir coragem, chegar na pessoa, demonstrar interesse e ainda assim ouvir um não.
E tudo bem.
Respeita.
Vai embora.
Mantém a dignidade.
E, se necessário, come um brigadeiro.
Mas nunca permita que diminuam suas conquistas.
Eu tinha seis anos.
SEIS.
Minha mãe disse que eu era um homenzinho.
Eu apenas acreditei na autoridade competente.
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