21 MAI 2024
Meu herói
Meu pai morreu em 2023. O nome dele era Pedro. E eu ainda acho curioso como algumas pessoas conseguem continuar ocupando espaço mesmo depois que vão embora.

Trilha desta crônica
Johnny Cash — Father and Son
Meu pai morreu em 2023.
O nome dele era Pedro.
E eu ainda acho curioso como algumas pessoas conseguem continuar ocupando espaço mesmo depois que vão embora.
Meu pai era assim.
Ele chegava e alguma coisa mudava.
O ambiente ficava mais barulhento, mais leve, mais vivo. Falava com todo mundo. Fazia amizade fácil. Se alguém estivesse quieto demais, em pouco tempo Pedro já tinha dado um jeito de incluir a pessoa na conversa.
Era intenso.
Meio louco.
Às vezes impulsivo.
Engraçado pra caramba.
Daqueles sujeitos que não sabem passar discretamente pela vida.
E acho que herdei bastante disso dele.
Inclusive a parte palhaça.
Principalmente a parte palhaça.
Meu pai fazia minha mãe rir de chorar.
Não é figura de linguagem.
Era daquele jeito de perder o ar, mandar ele parar, tentar recuperar a compostura e começar a rir tudo de novo só de olhar para a cara dele.
Eu cresci vendo aquilo.
Durante muito tempo achei normal.
Hoje sei que não era.
Era raro.
Era bonito.
E, principalmente, era uma forma de amor.
A garota do baile
Meus pais se conheceram num baile.
Talvez por isso exista uma história dos dois que ficou especialmente marcada em mim.
Ainda jovens, fizeram uma promessa:
sempre que brigassem, dançariam juntos depois.
Parece romântico quando contado assim.
Mas pense no que isso realmente significa.
Dançar apaixonado é fácil.
Quero ver oferecer a mão quando tu ainda está com raiva.
Quero ver encostar o rosto em quem acabou de ferir seu orgulho.
Quero ver escolher proximidade justamente quando tudo dentro de tu está pedindo distância.
Eu vi meus pais fazerem isso.
Não significava que o problema desaparecia.
Não significava que um deles deixava automaticamente de estar errado.
Era apenas uma maneira de lembrar uma coisa muito importante:
antes daquela briga, existia uma história.
Antes de serem dois adversários tentando defender seus argumentos, eram duas pessoas que tinham se escolhido.
E meu pai tinha uma capacidade que hoje considero extraordinária.
Ele sabia voltar para o dia 1.
Pedro nunca pareceu acreditar que conquistar minha mãe fosse uma missão encerrada porque ela tinha aceitado casar com ele.
Ele continuava conquistando.
Anos depois.
Com problemas.
Com boletos.
Com cansaço.
Com rotina.
Com as chatices inevitáveis de dividir uma vida com outro ser humano.
Ele ainda fazia graça para ela.
Ainda provocava.
Ainda queria arrancar aquele riso.
Ainda olhava.
Ainda prestava atenção.
Ainda dançava.
Era como se, em algum lugar dentro daquele homem mais velho, continuasse existindo o rapaz que encontrou uma garota num baile e percebeu que precisava fazer alguma coisa para ela gostar dele.
Eu cresci vendo isso e aprendi cedo uma coisa que só fui conseguir colocar em palavras muito mais tarde:
uma mulher não deveria ser bem tratada apenas durante a conquista.
Porque a conquista não termina quando ela escolhe tu.
Talvez seja exatamente ali que ela comece.
“Escolha alguém com quem tu goste de conversar”
Meu pai dizia uma coisa sobre relacionamento que, quando eu era mais novo, não parecia particularmente genial.
Hoje acho uma das coisas mais inteligentes que ele me ensinou.
Ele dizia:
“Quando tu amar uma mulher, tenha certeza de que gosta de conversar com ela. E faça ela rir.”
Porque, segundo Pedro, era isso que sobraria na velhice.
O corpo muda.
O cabelo muda.
O rosto muda.
A disposição muda.
A vida vai tirando de nós algumas das coisas que, quando somos jovens, juramos que serão importantes para sempre.
Mas duas pessoas ainda podem sentar uma ao lado da outra e conversar.
Ainda podem rir.
Ainda podem contar uma história pela centésima vez.
Ainda podem implicar uma com a outra.
Ainda podem se divertir simplesmente estando juntas.
Meu pai dizia que eu deveria escolher uma mulher cuja cabeça me interessasse.
Porque beleza chama atenção.
Mas conversa sustenta presença.
E hoje entendo por quê.
Imagine chegar aos setenta, oitenta anos ao lado de alguém.
O corpo que tu conheceu não existe mais daquele jeito.
Nem o seu.
Muita coisa passou.
Filhos cresceram.
Amigos partiram.
Planos deram certo.
Outros deram terrivelmente errado.
E no final de uma terça-feira qualquer existem duas pessoas sentadas uma diante da outra.
Sobre o que tus conversam?
Tus ainda conseguem rir?
Ainda existe curiosidade?
Ainda existe vontade de contar alguma coisa primeira para aquela pessoa?
Meu pai achava isso fundamental.
Hoje eu também acho.
Talvez amar seja encontrar alguém com quem até o silêncio seja confortável, mas com quem a conversa ainda seja desejada.
Tu não conhece ninguém para sempre
Tem outra coisa que aprendi observando meus pais.
Essa história de dizer “eu conheço minha mulher” sempre me pareceu incompleta.
Tu conhece a versão dela de hoje.
Amanhã a gente conversa de novo.
Porque gente muda.
Ainda bem.
A não ser que seja uma ameba.
Uma pessoa minimamente viva vai mudar ao longo de uma existência.
Vai aprender.
Vai desaprender.
Vai rever certezas.
Vai descobrir medos.
Vai superar alguns.
Vai adquirir outros.
Vai mudar de opinião.
Vai perder pessoas.
Vai conhecer outras.
Vai descobrir coisas sobre si mesma aos quarenta que seriam incompreensíveis aos vinte.
E tu também.
Então existe uma arrogância enorme em olhar para alguém depois de quinze anos e pensar:
“Eu já sei tudo sobre tu.”
Não sabe.
Talvez um dos motivos pelos quais tantos relacionamentos acabem seja porque as pessoas param de se conhecer.
Continuam casadas com uma lembrança.
Param de perguntar porque acham que já sabem a resposta.
Param de observar.
Param de ter curiosidade.
Param de conquistar.
E um belo dia olham para o outro lado da cama e encontram um estranho.
Não porque aquela pessoa mudou.
Mas porque ela mudou inúmeras vezes e tu não estava prestando atenção.
Talvez amar por muitos anos exija uma disposição estranha e bonita:
apaixonar-se por várias versões da mesma pessoa.
Conhecer.
Atualizar.
Descobrir.
Às vezes até se despedir silenciosamente de uma versão que tu amava para conhecer aquela que chegou no lugar.
Isso não significa aceitar tudo.
Meu pai também me ensinou isso.
Existem princípios inegociáveis.
Respeito.
Lealdade.
Dignidade.
Caráter.
Quando permanecer ao lado de alguém exige que tu destrua essas coisas dentro de si, isso deixou de ser amor há algum tempo.
Não existe virtude em permanecer onde existe humilhação, violência, desrespeito deliberado ou deslealdade.
Amar as diferentes versões de alguém não significa aceitar qualquer versão.
Mas fora aquilo que é inegociável, talvez amar seja também abandonar a pretensão de possuir uma definição definitiva do outro.
Olhar de vez em quando e perguntar:
“Quem é tu agora?”
E ter interesse genuíno pela resposta.
Acho que Pedro fazia isso com minha mãe.
Ele continuava conhecendo aquela mulher.
E talvez por isso continuasse conseguindo fazê-la rir.
O homem que meu pai me ensinou a tentar ser
Mas relacionamento foi apenas uma parte do que aprendi com ele.
Meu pai foi o primeiro homem que admirei.
Meu primeiro herói.
E não porque fosse perfeito.
Ainda bem que não era.
Pedro errava.
Ficava bravo.
Era teimoso.
Exagerava.
Tomava decisões ruins.
Tinha dias péssimos.
Era humano.
Foi justamente observando um homem imperfeito tentando fazer as coisas certas que aprendi alguma coisa sobre caráter.
Meu pai me ensinou que palavra tem peso.
Que se tu disse que vai fazer, faça.
Que responsabilidade não desaparece porque tu está cansado.
Que homem nenhum fica maior diminuindo outra pessoa.
Que força não é brutalidade.
Que proteger não é controlar.
Que amar não é possuir.
Que pedir desculpas não diminui ninguém.
Que assumir um erro exige muito mais coragem do que inventar uma justificativa.
Que família não é uma obrigação que tu tolera.
É gente pela qual tu se responsabiliza porque ama.
Que a maneira como tu trata alguém que não pode lhe oferecer absolutamente nada revela muito mais sobre tu do que a maneira como trata alguém importante.
E talvez a maior lição:
caráter é aquilo que tu faz quando não existe plateia.
Pedro nunca sentou comigo para anunciar:
“Filho, hoje vou ensinar tu a ser homem.”
Ainda bem.
Provavelmente eu teria achado um saco.
Ele fez algo muito mais eficiente.
Viveu na minha frente.
Eu assisti.
Só depois percebi que estava aprendendo.
O rastro que uma pessoa deixa
Meu pai marcava as pessoas.
Essa é uma das coisas que ficaram ainda mais evidentes depois que ele morreu.
Começaram a aparecer histórias.
Pessoas contando coisas que ele tinha feito e que eu nem sabia.
Conversas que eu nunca presenciei.
Ajuda que ele nunca chegou em casa anunciando.
Pequenos gestos que para ele provavelmente tinham sido apenas mais uma terça-feira, mas que alguém carregou durante anos.
Isso mexeu comigo.
Porque existe alguma coisa muito bonita em descobrir coisas boas sobre uma pessoa justamente quando ela já não está aqui para receber o crédito.
Talvez essa seja uma medida interessante de caráter.
Quem tu foi nas histórias que nunca contou sobre si mesmo?
Meu pai tinha esse jeito amigável.
Conversava com garçom.
Com vizinho.
Com desconhecido.
Com a pessoa do lado.
Cinco minutos depois parecia que eram amigos havia quinze anos.
Ele fazia gente se sentir vista.
E isso parece pequeno até tu perceber a quantidade de pessoas que atravessam a vida se sentindo invisíveis.
Pedro tinha presença.
Não presença de quem exige atenção.
Presença de quem distribui vida.
Ele fazia tu rir.
Fazia alguma loucura.
Contava alguma história.
Ajudava.
Provocava.
Às vezes irritava também, porque santo ele definitivamente não era.
Mas tu lembrava dele.
Meu pai não sabia passar despercebido pela vida.
E acho que eu também não sei.
Vejo Pedro em mim quando faço graça porque alguém está triste.
Quando começo a conversar com uma pessoa que nunca vi.
Quando conto uma história com intensidade demais.
Quando faço alguma coisa meio maluca porque pensei: “vai render uma história boa”.
Quando entro num lugar e tenho uma necessidade quase patológica de fazer aquele ambiente ficar mais divertido.
Especialmente quando consigo fazer alguém rir de verdade.
Aquele riso que desmonta.
Talvez seja por isso que eu goste tanto.
Porque durante a minha infância uma das imagens mais bonitas que tive de amor era meu pai fazendo minha mãe rir até chorar.
E então ele morreu
Em 2023, meu pai morreu em um acidente.
Existe uma violência particular nessa frase.
Porque acidentes não pedem licença.
Não existe preparação.
Não existe aquele último dia cinematográfico em que todo mundo diz exatamente o que precisava dizer.
Existe um dia comum.
E depois existe uma vida inteira dividida entre antes e depois dele.
Durante algum tempo achei que a pior parte de perder meu pai fosse o dia em que ele morreu.
Não foi.
Aquele dia terminou.
A pior parte veio nos dias comuns.
Quando aconteceu alguma coisa boa e pensei em ligar para ele.
Quando precisei de um conselho.
Quando ouvi uma piada e pensei:
“Meu pai ia rir disso.”
Esse “ia” é uma palavra minúscula.
Mas pesa pra caramba.
A morte repentina deixa uma coleção de frases sem destinatário.
Obrigado.
Desculpa.
Tu tinha razão.
Tenho orgulho de tu.
Eu te amo.
A gente acredita que terá outra oportunidade.
Outro almoço.
Outro domingo.
Outro aniversário.
Outra conversa besta.
Outro abraço.
Até descobrir que algumas coisas acontecem pela última vez sem terem a delicadeza de avisar que são a última vez.
Se eu soubesse qual seria nosso último abraço, teria ficado mais alguns segundos.
Não precisava de uma hora.
Hoje eu aceitaria cinco.
Só para abraçá-lo sabendo.
Só para prestar atenção.
Só para guardar direito.
Meu pai não foi um acidente em 2023
Essa é uma coisa que faço questão de dizer.
Eu me recuso a reduzir a história do meu pai ao dia em que ele morreu.
Meu pai não foi um acidente em 2023.
Meu pai foi tudo que aconteceu antes.
Foi o rapaz que conheceu uma garota num baile.
Foi o homem que continuou conquistando essa garota quando ela já era sua esposa havia anos.
Foi o cara que depois de uma briga ainda estendia a mão para dançar.
Foi o homem que fazia minha mãe rir até faltar ar.
Foi o amigo que as pessoas ainda lembram.
Foi a ajuda que ele prestou sem contar para ninguém.
Foi conselho.
Foi bronca.
Foi abraço.
Foi piada ruim.
Foi presença.
Foi caráter.
Foi casa.
Foi meu primeiro exemplo de masculinidade.
Meu primeiro herói.
E foi o homem que me ensinou que ser bom não significa ser sem graça.
Tu pode ter princípios e continuar sendo meio maluco.
Pode carregar responsabilidade e rir alto.
Pode ser forte e afetuoso.
Pode ser respeitado sem ser temido.
Pode amar uma mulher sem tentar possuí-la.
Pode envelhecer ao lado de alguém e ainda querer fazê-la rir.
Pode conhecer alguém durante décadas e continuar curioso.
Pode brigar e ainda estender a mão para dançar.
A herança
Depois que meu pai morreu, percebi que herança é uma palavra muito mal compreendida.
Porque as coisas mais importantes que Pedro me deixou não cabem em inventário.
Ele deixou princípios.
Deixou histórias.
Deixou risadas.
Deixou gente que sente saudade.
Deixou uma mulher que soube que foi amada.
E deixou um filho tentando descobrir todos os dias se está sendo digno daquilo que aprendeu.
Porque carregar os princípios de alguém é muito mais difícil do que carregar seu sobrenome.
Eu não quero apenas dizer que meu pai foi um grande homem.
Quero que a forma como eu vivo torne essa frase verdadeira.
Quero cumprir minha palavra.
Quero assumir meus erros.
Quero tratar bem quem não tem nada para me oferecer.
Quero ser firme sem ser cruel.
Quero continuar fazendo as pessoas rirem.
Quero que meus amigos saibam que podem me procurar.
Quero, se um dia dividir a vida com uma mulher, nunca cometer o erro de achar que já terminei de conhecê-la.
Quero continuar perguntando.
Continuar ouvindo.
Continuar conquistando.
Quero fazer ela rir quando tivermos vinte coisas para resolver.
Quero conversar quando a beleza tiver mudado, quando o corpo tiver envelhecido e quando a juventude for apenas uma fotografia esquecida em alguma gaveta.
Quero olhar para ela depois de décadas e ainda ter alguma coisa para perguntar.
E quando a vida inevitavelmente nos transformar em pessoas diferentes, quero ter inteligência e humildade suficientes para conhecer a mulher que chegou no lugar daquela que eu conheci.
E espero que ela faça o mesmo comigo.
Quero aprender a amar outras versões.
Sem abrir mão daquilo que é inegociável.
Talvez seja isso que meu pai estivesse tentando me ensinar o tempo inteiro.
Amor não é encontrar alguém que nunca vai mudar.
É encontrar alguém cuja mudança tu ainda terá vontade de acompanhar.
Ainda estou tentando, pai
Eu não sei se me tornei o homem que Pedro imaginava.
Essa pergunta me acompanha.
Tem dias em que acho que sim.
Em outros, tenho certeza de que ele me daria aquela olhada de pai que consegue dizer um parágrafo inteiro sem abrir a boca.
Ainda erro pra caramba.
Ainda sou impulsivo.
Ainda exagero.
Ainda falo mais do que deveria.
Ainda sou intenso demais para algumas pessoas.
Ainda faço piada quando provavelmente deveria ficar quieto.
Então, nesse aspecto, acho que estamos bem, Pedro.
A genética funcionou.
Mas eu continuo tentando.
E talvez ser um bom homem seja justamente isso.
Não uma condição que tu alcança.
Uma direção que escolhe repetidamente.
Meu pai deixou um legado.
Não porque tenha sido famoso.
Não porque tenha acumulado títulos.
Não porque tenha feito alguma coisa que o mundo inteiro conheça.
Mas porque marcou a vida das pessoas que tiveram a sorte de cruzar com ele.
E hoje acho que uma vida bem vivida talvez seja isso.
Quando tu partir, alguém rir lembrando de uma idiotice sua.
Alguém contar uma história sobre uma vez em que tu ajudou.
Alguém dizer que aprendeu alguma coisa observando tu.
Uma mulher lembrar que foi profundamente amada.
Um amigo sentir falta da sua presença.
Um filho continuar consultando seus princípios quando precisa escolher um caminho.
Isso é permanecer.
Às vezes ainda penso em tudo que gostaria de contar para ele.
Nas coisas que aconteceram.
Nas decisões que tomei.
Nas vezes em que acertei.
Principalmente nas vezes em que fiz alguma coisa completamente absurda e sei que ele seria a primeira pessoa a rir.
E existe uma parte infantil de mim que, apesar de entender perfeitamente a morte, ainda espera alguma impossibilidade.
Que ele apareça.
Só uma vez.
Não faria discurso.
Não perguntaria onde esteve.
Não cobraria os anos que perdemos.
Eu só abraçaria meu pai.
Dessa vez por tempo demais.
E talvez dissesse uma coisa que não sei se consegui dizer o suficiente enquanto ele estava aqui:
“Eu estava prestando atenção, pai.”
Quando tu fazia minha mãe rir.
Quando voltava para dançar.
Quando cumpria sua palavra.
Quando ajudava alguém.
Quando errava e voltava atrás.
Quando fazia amizade com um desconhecido.
Quando escolhia a família.
Quando transformava um lugar só por estar nele.
Eu estava prestando atenção.
Demorei para entender algumas aulas.
Mas estava.
E continuo tentando.
Se algum dia eu conseguir ser um homem que trata uma mulher com amor e respeito, que faz os amigos rirem, que aparece quando alguém precisa, que mantém a palavra e que deixa as pessoas um pouco melhores depois de passar pela vida delas, uma parte enorme desse mérito não será minha.
Será sua.
Porque muita coisa em mim começou com Pedro.
O jeito intenso.
A loucura.
A amizade fácil.
A palhaçada.
Os princípios.
A vontade de amar profundamente.
Essa mania de tentar fazer a vida ficar um pouco mais divertida para quem está por perto.
Meu pai morreu em 2023.
Mas Pedro não terminou naquele dia.
Tem gente que deixa coisas.
Meu pai deixou um jeito de viver.
E enquanto eu continuar tentando viver à altura dele, de alguma forma, aquele homem ainda está aqui.
Às vezes na minha consciência.
Às vezes nas minhas escolhas.
Às vezes no jeito como pretendo amar.
E muitas vezes naquele instante em que alguém começa a rir por alguma besteira que eu fiz e eu penso, quase sem perceber:
“Essa foi tu que me ensinou, pai.”
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